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São demais os perigos desta vida

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
- Vinícius de Moraes e Toquinho

Todos fomos muito tocados pelo que aconteceu na cidade de Santa Maria, aqui no Rio Grande do Sul, na madrugada de sábado para domingo, dia 27 de janeiro, quando o incêndio na boate Kiss matou mais de 230 jovens, feriu fisicamente outros 100 (muitos gravemente) e feriu, de muitas outras maneiras, o mundo inteiro.

Acordei no domingo cedo, já com a tragédia tomando conta de todas as formas de comunicação. Foi impossível, como pai, evitar a chegada do pensamento egoísta: "meu ninho está a salvo!". Não está, nada está. Basta um idiota com uma arma na mão, um sinalizador na mão e um poder ilusório nas mãos de uma estrutura ainda mais idiota.

No afã da justiça vamos querer culpados. Todos! Quanto mais melhor. Do auxiliar de palco que disparou o sinalizador àquele que o ordenou a fazer isso. Dos seguranças que impediam a saída dos que não haviam pago a comanda àquele que os instruiu a fazer isso. De quem não manteve os extintores em dia ao poder público que não os fiscalizou. Nós todos que pagamos uma naba de impostos e exigimos muito pouco de quem os recebe. Na cadeia de todas as coisas todos temos nossa parcela de culpa por tragédias assim.

A banda que começava a lançar-se ao sucesso acabou. Os donos da casa de espetáculos amargam o trauma pelo acontecido e, muito provavelmente, o final de sua carreira como empresários da noite. O rapaz que lançou o sinalizador jamais se recuperará da dor desta fatídica noite. Os pais de todos esses jovens fazem a retrospectiva de tudo o que poderiam ter feito para evitar o ocorrido. Todos nós imaginamos tudo o que os mais de 230 jovens poderiam ter sido, além de mártires da balada.

Antes de começar o filme principal, no cinema, assistimos a outro com as instruções de segurança mostrando a localização de extintores e saídas de emergência. Antes de um avião decolar os comissários instruem todos os passageiros quanto à segurança a bordo, com especial atenção àqueles sentados próximos às saídas de emergência. Cinemas e aviões são ambientes muito mais controlados e têm essa preocupação. Não tenho notícia de algo semelhante em casas noturnas. Em um ambiente mais descontraído as informações deste tipo também poderiam ser passadas de forma mais leve, mas com eficácia. O DJ poderia ter a balada da segurança, quem cantasse junto ganhava um ingresso para um próximo evento, coisas assim. Algo que servisse como um agradecimento aos que nos deixaram naquela noite de Santa Maria e em sua homenagem. Algo que vivesse além da caça aos culpados e muito mais além do perigoso risco da banalização de mais essa fatalidade.

Fabrício Carpinejar traduziu nossos sentimentos de forma belíssima em seu blog:

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.
As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.
Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.
As palavras perderam o sentido.

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Publicado originalmente no Dicas-L.



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