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Linux e o Caminho para o Futuro

Ao escrever o título deste artigo não foi minha intenção parafrasear ou satirizar o título do livro de Bill Gates, "A Estrada do Futuro", mas confesso que em uma das inúmeras revisões deste texto, ao associar o título do artigo ao livro, acabei sendo algumas vezes pego na armadilha dos puristas, que insistem em achar que o pobre-menino-rico William Gates III é realmente a Besta do Apocalipse e que o Windows é a janela para o fim do mundo.

Conheci o Linux entre 93 e 94, e em 1995 juntei-me a uma turma de loucos na empresa em que trabalhava para instalar e configurar o Linux em Notebooks Toshiba. Nossa intenção era a das melhores: poder usar um sistema operacional compatível com o Unix das máquinas que nossa empresa vendia e assim termos algo portátil que nos permitisse a reprodução e a análise de problemas no campo. O Linux ainda era um mistério no mundo corporativo e nosso projeto foi feito meio que às escondidas, nas horas vagas. O Unix acabou deixando de ser foco da empresa em que trabalhávamos mas nós acabamos nos apaixonando pelo Linux.

Unix, e por conseqüência Linux, foram - e até certo ponto ainda são - considerados sistemas operacionais para CDFs (precisa expandir a sigla?) ou Nerds na expressão americana. Seus comandos e funções de no máximo três letras de difícil memorização (cujo nome muitas vezes reflete o nome ou o humor momentâneo da pessoa que os criou) e sua associação a ambientes acadêmicos e científicos já assustaram muita gente. A utilização do Unix em aplicações comerciais em conjunto com a popularização do Linux acabaram por levar a criação de interfaces mais intuitivas e de visual mais agradável, cada vez mais parecidas com o Windows! Uma das interfaces mais populares, chamada KDE (K Desktop Environment) propõe-se especialmente a parecer-se com as interfaces Windows e Macintosh - aliás, alguém ainda lembra desta briga? Quando o Windows 95 surgiu os seguidores da linha Apple diziam que ele era uma cópia da interface do Macintosh. Isto prova que no mundo da informática muito se cria, mas muito também se copia.

Bill Gates com a Microsoft propõe uma Estrada do Futuro, e continuando a analogia, facilmente percebemos que para cada estrada que leva de um lugar a outro podem existir caminhos paralelos, atalhos mais rápidos ou nem tão rápidos mas mais agradáveis e compensadores. Em Arroio do Meio, onde moro, há uma estrada que leva à cidade de Lajeado e um caminho de terra como alternativa. A estrada é rápida, mas o caminho que passa por uma ponte de ferro acima do rio Taquari é infinitamente mais bonito. Muitas vezes, quando a estrada esteve em reforma, o caminho serviu de alternativa. Assim também é a informática. Estradas não acabam com caminhos e nem o contrário. Para cada situação existe mais de uma solução. Larry Wall, criador da linguagem PERL, gosta de repetir que há sempre muitos meios de se fazer a mesma coisa.

Mas por quê o Linux está ficando tão popular? Por quê isto assusta a Microsoft?

A resposta é fácil. O Linux é popular porque é gratuito e aberto. Com o crescimento da Internet o Linux provou ser a base ideal para o desenvolvimento de serviços na rede. Ele nasceu na Internet e a Internet o mantém vivo. A própria Internet fez o marketing do Linux. Por suas características abertas e o compromisso que todos os desenvolvedores e usuários mantém com esta abertura, cada nova funcionalidade do Linux é imediatamente disponibilizada na rede, devidamente documentada dentro do padrão LDP (Linux Documentation Project), também criado pelos próprios usuários. Por ser gratuito, é possível configurar um servidor de rede ou mesmo uma estação desktop com aplicativos comuns de escritório (Processador de Textos, Planilha de Cálculos, etc.) sem nenhum investimento em programas, e sem correr o risco de se estar utilizando cópias ilegais destes programas.

A Microsoft preocupa-se porque o Linux não fazia parte de sua estratégia. Por maior e mais qualificado que seja seu grupo de desenvolvimento é impossível competir com um enorme grupo de visionários que, voluntariamente, desenvolvem novas funcionalidades para o Linux. A história tem comprovado que o Linux tem sido capaz de estar na frente em funcionalidades para a Internet e tem também rapidamente incorporado novas funções que possam ter surgido na Microsoft. O ranço que surgiu contra Bill Gates também não ajuda. Mesmo que a Microsoft decida abrir os códigos fontes de seus produtos e disponibilizá-los na Internet, dificilmente irá trazer para a sua simpatia aqueles que já têm o Linux como plataforma de escolha.

Não ouso dizer que a Microsoft está num mato sem cachorro - como alguns preferem crer - pois Bill Gates e sua equipe têm sempre provado criatividade para conquistar mais e mais mercados e manter-se à frente da concorrência. O que muito provavelmente veremos mais e mais daqui para a frente é a busca da Microsoft por parcerias com empresas que produzem acessórios importantes para o Linux (como recentemente aconteceu com a Active State, empresa que detém os direitos sobre a linguagem PERL), garantindo que estes acessórios estejam também disponíveis na plataforma Windows. E sem querer ser futurólogo, mas já arriscando um palpite, creio que em menos de dois anos a própria Microsoft terá uma versão "alternativa" de seus principais produtos em uma distribuição Linux-Microsoft, a um preço bastante competitivo com as distribuições de Linux já existentes hoje.

Publicado originalmente no portal Internetsul.



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